CONFIGURANDO UMA POSSIBILIDADE: A NARRATIVA HISTÓRICA
Profundamente inspirados na narrativa clássica grega, mais especificamente a “Odisséia”, vários autores, como Auerbach e Hananh Arendt, procuram recepcionar as diversas concepções de escrita histórica; dentre os diferentes pontos de vista desses autores, podemos destacar François Hartog como o estudo mais recente (1996), que remonta a fundamentação do privilégio do olhar, como forma de conhecimento pautado na sua observação do viajante Ulisses.
Hartog conduz seu texto, baseando-se na elaboração memória/lembrança para compor os fatos passados, relacionados paralelamente à viagem de retorno de Ulisses ao seu país de origem, depois de uma ausência de muitos anos.
O objetivo de Manuel Luiz Salgado Guimarães, nesse artigo, é destacar um dos aspectos centrais do trabalho da narrativa histórica, pautada num controle, numa ordenação e numa domesticação das experiências vividas, afetadas e movidas pelos sentimentos, afetos e paixões, cuja natureza pode se mostrar disruptiva e desorganizadora, enfatizando que o trabalho da narrativa é ordenar, dar forma e tornar significativo um conjunto de experiências e vivências dispersas, segundo padrões e dispositivos capazes de serem apreendidos por uma comunidade de leitores/intérpretes; porém, opera necessariamente a partir de um trabalho de domesticação desse passado através de necessidades e demandas que não são, obviamente, do próprio passado.
O SÉCULO XIX E O PROJETO DE UMA DISCIPLINARIZAÇÃO DA HISTÓRIA
A escrita da história, a partir do século XIX começou a passar por um processo de profissionalização e organização, como uma disciplina que passava a ser detentora de toda enunciação legítima do passado, mesmo não se dando em todas as esferas culturais da mesma forma e segundo os mesmos princípios e tradições; mas de um modelo unívoco e rígido de conceber a escrita da história que parecia dar unidade ao campo no referido século, o qual era atravessado por disputas e tensões, por modelos alternativos de recepcionar sua prática e por tradições diversas em termos de gêneros adequados à exposição dos fatos narrados. A concepção de um moderno conceito de história também surge dentro dessa perspectiva, sob o olhar de Reinhart Koselleck.
Adentrando mais nesse item, as implicações políticas de um projeto dessa monta têm sido também objeto de inúmeros trabalhos e pesquisas, especialmente a profunda relação a ser estabelecida entre a profissionalização, a disciplinarização e a constituição do campo da história e dos Estados nacionais modernos.
Para ilustrar esse pensamento, Salgado Guimarães recorre ao âmbito dos desdobramentos políticos da Revolução Francesa, para podermos compreender a importância e a dimensão de um projeto de constituição da disciplina “História”, em paralelo à constituição das nações modernas.
GUIZOT: ENTRE A POLÍTICA E A HISTÓRIA
Destacando a geração de historiadores liberais franceses, alçados ao poder com a revolução de 1930, a que mais dramaticamente experimentou os dilemas decorrentes da necessidade de uma escrita da história nacional. Essa necessidade para uma sociedade que sofreu um movimento que se afirmava rompendo com o passado do Antigo Regime, o qual foi visto como fonte de infortúnios e desgraças e, portanto, cuja superação se configurava como condição do próprio presente.
François Guizot é o principal representante dessa leva de historiadores dedicados também à política, com seu projeto de uma administração do passado pelo estado como condição de forjar as bases sólidas da sociedade do presente.
Nesse contexto, os limites entre a história e a política parecem claramente definidos: há um tempo específico que torna os eventos próprios a serem tratados pela história e por isso mesmo não são mais objeto da política, entendida como um campo onde os conflitos são evidentes e movem as ações, portanto, não deve ser este, o lugar da história. Para Guizot este é o momento que antecede a Revolução Francesa.
QUARENTA ANOS DEPOIS: MEMÓRIA E HISTÓRIA OU HISTÓRIA DA MEMÓRIA
Moscou, 60 anos após a II Guerra Mundial
Redemocratização
Mencionando fragmentos de discursos de dois homens públicos, no exercício da política, sobre dois fatos distintos, ocorridos num passado não muito distante, podemos perceber que Salgado Guimarães demonstra a preocupação dos mesmos defrontados com os desafios impostos pelo passado recente de suas sociedades.
Passado que, pela sua dimensão traumática (guardadas suas evidentes diferenças), pode dividir gerações vivendo em uma mesma época, assinalada por Guisot, quando se inquietava a esse respeito devido aos desdobramentos possíveis para a vida das sociedades, com riscos para a vida em comum.
Ainda para Guisot, o encerramento, o término de um episódio, se faz pertinente para a escrita de um novo presente, a exemplo da Revolução Francesa. Curiosamente somos nós os historiadores convocados para esta tarefa, a de “fixar a justa” memória, e pela operação historiográfica livrar o presente das disputas do passado, impedindo que este continue sendo matéria de contenda, de interrogação e possa ser só presente!
Referências:
SALGADO, Manoel Luiz. Escrever a história, domesticar o passado. In: Lopes, Antonio H. História e Linguagens. Rio de Janeiro: 7 letras, 2006, P. 45-58.
Referências:
Imagens
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